Pode parecer falso ou até mesmo um tanto arrogante da minha parte, mas eu precisava dizer o quão miseravelmente descartável foi a sua presença na sua vida. As dores da sua partida ainda me são habituais e você pode inflar um peito de orgulho por uma ou outra lágrima que ainda é capaz de me fazer derramar – as marcas continuam dentro de mim e refletem em tudo aquilo que eu toco, então não posso disfarçar que o mal que me fez foi passado adiante. Mas não se engane em pensar que ainda estou iludida com seus discursos imensamente planejados de conquistador barato que, é bom constar, você não soube ser; o papel de cafajeste não lhe caiu bem – disfarçou muito mal, meu querido, e hoje tudo o que lhe resta é esse o desprezo de quem muito pouco demorou a descobrir que você não passava disso, dessa coisa morta por dentro, dessa alma que não tem razão para existir.Já lamentei até mais que devia, já despertei em muitos a sensação pesada da nossa história fracassada – enfim, o que quero dizer é que a mim nada mais resta. O vinho que me trouxe na ultima vez que me visitou, ah, esse fiz questão de tomar enquanto olhava o seu rosto nas nossas fotos – e gargalhava ao perceber o quão eu fui estúpida para, no segundo seguinte, descobrir que o verdadeiro palhaço da história foi você: você que não soube sequer sustentar a sua mentira; não enganou nem a mim e nem a ninguém, e hoje nos encontramos assim, esse cheiro de história mal resolvida no ar, uma garrafa vazia no canto da sala e dois corpos antes unidos, hoje sem ligação alguma.
Lembro da primeira vez que conversamos e que você demonstrou algum interesse. Até então me encantava o doce gosto do mistério que há muito eu não sentia – a saudade dessas trocas de olhares apertou e eu, mais fácil do que você poderia esperar, me rendi de maneira absurdamente manipulável. E hoje, olhando para tudo e imaginando os meus sorrisos a cada bobagem que você dizia – ah, sim, me bate uma vergonha de mim. E mais do que a sua perda – que, cá entre nós, não é exatamente o que hoje eu lamento – fica em mim esse incômodo de ter sido tão estupidamente feliz. Fica a vergonha de ter me permitido. E fica o receio de, um dia, me dar ao luxo de sorrir novamente para alguém do modo que sorri para você.
Texto extraído do Blog 'verdade mal contada' de Deyse batista .
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