
Não sei se você sabe, mas eu gosto de escrever cartas. Queria ter lhe mandado alguma, inclusive, mas não consigo imaginar qual seria a sua reação – talvez não pensasse nada ou então um soltasse um ''como ela entrega sentimentos às coisas'' carregado de desdenho. Quanto à última, estaria quase certo porque, sim, eu entrego a cada detalhe o melhor ou ao menos o mais profundo de mim. Não gosto de desperdiçar chances de sentir algo, entende?
Acima de tudo, eu gosto de contar histórias. Mas, não se engane: não seremos protagonistas de nenhum conto romântico ou de uma novela recheada de dramas e conversa, porque qualquer coisa do tipo iria refletir uma entrega a você que, felizmente ou não, eu não cheguei a atingir. Não estou desmerecendo a sua importância e tal pouco subtraindo de você as suas conquistas diante da nuvem de sentimentos que me envolve, mas não vou lhe atribuir, sinto muito, o papel de ''o homem mais importante da minha vida'' porque ainda que você o pudesse ser, aqui já não tinha mais vaga.
Eu não vou dedicar lhe uma linha sequer ou à sua mania de tentar me confundir como se antes de lhe conhecer eu não tivesse uma vida – como se depois de lhe olhar, lhe abraçar e trocas algumas poucas e nada definitivas palavras com você, eu fosse desfazer todos os meus planos que vão funcionar muito bem, obrigada, com ou sem a sua interferência. Acho muito vaga e incerta a sua permanência na minha vida e eu agradeço sempre por já ter passado da fase das aventuras amorosas – gosto de coisas precisas e se a você parece sedutor esse jogo de ironias que pode resultar em uma relação séria tão bem como é possível que acabe em absolutamente nada, a mim parece uma inconfundível perda de tempo.
Sempre acabo sendo meio rude, me desculpe por isso. Só quero evitar desentendimentos que muitas vezes são originados de uma palavra errada dita na frase errada – enfim, se a minha sinceridade o machuca, muito mais estrago fariam as minhas mentiras. Eu o admiro, o respeito e tenha certeza que de mim sempre terá um afeto imensurável, mas não posso deixar que toda a minha admiração me cegue diante da sua tentativa de me desestruturar – será benvindo em minha vida quando puser a cabeça e o coração no lugar. Até lá, meu querido, pare de brincar comigo, porque isso não tem a menor graça.
[Texto extraído do Blog Verdade mal Contada de Deyse Batista]
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