
À você que não soube me amar
Eu desisto de tentar ser algo importante pra você. Desisto de me iludir achando que um dia você vai entender o verdadeiro valor do que há entre você e eu. Então, embrulho todos os nossos planos supostamente felizes e regados a romantismo dos anos 50 - coloco tudo dentro de uma caixa, enlaço com fita azul e envio a você, para que guarde a última lembrança de tudo que eu jamais quero voltar a lembrar.
Vou me acomodar ao velho sofá, me entregar ao vinho barato e só; não aguardo qualquer resposta, porque esperar por você é triste - triste como quando eu era garotinha e minha mãe me ensinava a cultivar flores. E eu empregava naquilo toda a minha energia, mas quanto mais carinho eu oferecia, mais murcha a flor ia ficando - até o dia que ela morreu, assim, ingrata. E eu me perguntava o que até hoje não entendo: desde quando cuidar do que se ama é errado?
Mas eu sei que foi isso, foi em querer em excesso que eu pequei e, pronto, eis o meu castigo: ter que conviver sempre com o sacrifício daquilo que eu tinha de verdadeiramente importante entre todas essas coisas supostamente valiosas que carrego comigo. Mas não posso esquecer do seu mérito, porque você, meu bem, ah... Como você é mestre na arte de diminuir tudo aquilo que eu tenho mais precioso.
Você sabe perfeitamente bem que é dono de mim e usa todo esse domínio para modelar cada passo meu - mas não mais, não agora que foi jogada na minha cara essa sua estupidez de criança birrenta que se misturava com a minha necessidade sádica de controle e sempre resultava nisso, nessas minhas declarações cheias de ofensas que, no fim, não irão aliviar nem a minha dor, nem a sua (se é que a tal se faz presente).
O que vale é: esqueça as suas regalias, agora que lhe entrego sua carta de despacho - estão aqui as últimas palavras que você terá de mim. Não espere mais ligações apaixonadas, súplicas no fim da noite e muito menos um daqueles ''eu te perdoo'' que tanto me doíam, mas que eu lhe oferecia de forma banal – e, quanto a isso, eu assumo o meu erro: nunca fui boa em selecionar a quem amar e a quem desprezar (sem perder a classe e o orgulho, por favor).
Não queria lhe dizer nada que doesse, não queria lhe pagar com a mesma marca ardente, mas por mais trágico que pareça, eu pareço finalmente ter percebido que ''viver bem'' e ''viver com você'' jamais podem ter o mesmo significado. De qualquer maneira, enfiando meu valores morais goela abaixo e justiça seja feita, deixo os meus mais sinceros e rancorosos votos que você deixe de ser um canalha manipulador de sentimentos e que, um dia, encontre alguém que o diminua exatamente da mesma forma que você fez comigo.
[Texto extraído do Blog Verdade mal contada de Deyse Batista]
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